O Hino da Cabocla - Poesia de Junqueira Freire

Postado por José Guimarães | Postado em Poesias | Postado dia 22-05-2012

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Junqueira Freire é o nome que ficou conhecido o poeta baiano Luiz José de Junqueira Freire. Nasceu na Bahia em 1832. Professou na ordem beneditina em sua cidade natal.

Sou índia, sou virgem, sou linda, sou débil,

— É quanto vós outros, ó tapes, dizeis!

Sabei, bravos tapes! — que eu sei com destreza

Cravar minhas setas no peito dos reis!

 

Sabei que não canto somente prazeres,

Sabei que não gemo somente de amores:

Sabei que nem sempre vagueio nos bosques,

Sabei que nem sempre me adorno de flores.

 

Meus lábios não beijam os lábios do amante,

Meus lábios combatem tirânicas leis;

Meus lábios são como trovões estupendos,

Que cospem coriscos na face dos reis!

 

Quem viu-me nas liças, quem viu-me covarde,

Aos silvos da flecha — quem viu-me escorar?

Eu sou como a onça, pequena e valente,

Eu sei os perigos da guerra afrontar!

 

Enchi meus carcases de agudas taquaras,

Que iguais nas florestas jamais achareis;

E dessas taquaras fatais é que pendem

As vidas infames de todos os reis.

 

Sou índia, não nego: — meus finos cabelos

— Qual juba ferina — bem longos que são!

Porém esse peito, que férvido pulsa,

É másculo, ó tapes! ou é de um leão!

 

Meu ânimo, ó tapes! — aqui vos conjuro,

— Bem cedo meu ânimo ardente vereis.

Que eu já me preparo com as setas melhores,

Que saibam cravar-se no peito dos reis!

 

Eu tenho cingidos na fronte, ó guerreiros,

Seis dentes de chefes de amigas coortes:

— Na paz os meus dedos desfiam amores,

Na guerra os meus dedos disparam mil mortes!

 

São seis as vitórias que cingem-me a testa,

— Não vedes, ó tapes? meus louros — são seis!

Quem cinge na testa seis louros de glória,

— Não teme essas tropas compradas dos reis.

 

As minhas façanhas espantam aos tapes,

— Invejam-me todos as altas façanhas:

Só elas são como penhascos gigantes,

Só elas são como brasílias montanhas!

 

Só elas não curvam-se ao mando dos homens,

Só elas inculcam despóticas leis;

Só elas humilham a fronte aos tiranos,

Só elas abalam os tronos dos reis!

 

Meus membros são débeis, — qual junco flexível,

Meu pé tão mimoso — dizeis — tão maneiro!

Mas pé tão mimoso — sabei que ele esmaga

O colo possante do vil estrangeiro!

 

Sou índia, sou virgem, sou débil, sou fraca,

— Só isso vós, tapes injustos, dizeis:

Sabei, bravos tapes! — que eu sei com destreza

Cravar minhas setas no peito dos reis.

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